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A história da Avenida Tiradentes, por Edison Veiga

museu

Fonte: O Estado de S.Paulo
Autor: Edison Veiga
Link:
http://www.estadao.com.br/noticias/cidades,avenida-tiradentes-a-antiga-estrada-real-cheia-de-historia,1156070,0.htm  

Avenida Tiradentes: a antiga estrada real cheia de história

Nos 1,8km de extensão, há prédios como a Estação da Luz, o mosteiro idealizado por Frei Galvão e o arco do presídio de Tiradentes

SÃO PAULO - A avenida homenageia Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, mártir da Independência que viveu de 1746 a 1792. Mas o caminho já existia antes de o personagem histórico ter nascido. Era chamado de "estrada real de Guarepe", ou "Guaré", nome de um pequeno rio que corria na região.

"Nesse local ocorria criação de gado. Um pouco mais ao norte, havia um pouso de tropeiros", pontua o historiador e arquiteto Benedito Lima de Toledo, professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (USP).

No século 18, a avenida começou a ficar mais movimentada. Foi ali o local escolhido pelo religioso franciscano Antônio de Sant’Anna Galvão, o Frei Galvão (1739- 1822), para erguer um convento, chamado de Mosteiro da Luz. Frei Galvão atuou como arquiteto, mestre de obras, pedreiro e carpinteiro - ele assumiu o trabalho braçal ao lado dos escravos cedidos por famílias nobres para a construção. A técnica aplicada, a taipa de pilão, era comum na época.

Seus dotes de arquiteto resultaram em uma percepção da importância que o caminho, hoje avenida, teria para a cidade. Conforme assinala Toledo no livro Frei Galvão: Arquiteto (Ateliê Editorial), Frei Galvão alterou, durante a obra, a entrada da capela, originalmente com a face voltada para o sul. Foi uma previsão acertada de que a região onde hoje está a avenida seria movimentada. Então, criou novo frontispício, e a face principal da igreja passou a ser daquele lado. É por isso que o altar, cuja disposição original foi mantida, está à esquerda de quem entra - e não à frente, como de praxe.

Ali, antes existia uma ermida, construída em homenagem a Nossa Senhora da Luz, no início do século 17. "As obras para o novo templo devemos a Frei Galvão, que nessa empresa levou 48 anos até sua morte, em 1822. As obras foram iniciadas a 2 de fevereiro de 1774", conclui Toledo.

Acredita-se que a largura da via, excepcional para os padrões da época, seja um sinal da efervescência comercial da região. "Ali ocorriam habitualmente as chamadas ‘ferias de Pilatos’, como era conhecido o governador de São Paulo Melo Castro e Mendonça", pontua o arquiteto e historiador.

Documentos do Arquivo Histórico Municipal mostram que o caminho passou a ser chamado de Tiradentes em 1916. O batismo veio após a obra - a avenida, já com traçado semelhante ao atual, foi construída na gestão do primeiro prefeito de São Paulo, conselheiro Antonio da Silva Prado (1840-1929), que ocupou o cargo de 1899 a 1911.

É pequena, com apenas 1,8 km de extensão. Mas fundamental. Ali estão três estações do Metrô (Luz, Tiradentes e Armênia) e marcos históricos e culturais como a Pinacoteca do Estado, o Jardim da Luz, a Praça Coronel Fernando Prestes, o Museu de Arte Sacra e o já citado Mosteiro da Luz.

E para não dizer que Tiradentes, que era dentista, não está representado, a unidade do Centro Universitário Senac localizada na avenida conta com uma clínica odontológica que atende 600 pacientes por mês. A clínica existe desde 2003.

Marcos. Na Avenida Tiradentes funcionou, por mais de 60 anos, a Escola Politécnica da Universidade de São Paulo - que quando foi transferida à Cidade Universitária, no Butantã, deu lugar a uma unidade da Faculdade de Tecnologia (Fatec).

Também são históricos o prédio-sede da Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar (Rota) e o arco remanescente do Presídio Tiradentes. Este funcionou de 1852 a 1972. Durante a Era Vargas, abrigou presos políticos como o escritor Monteiro Lobato (1882-1948). O mesmo aconteceu na ditadura militar, quando até a atual presidente Dilma Rousseff esteve presa ali. O presídio foi demolido em 1985, mas o portal foi preservado "pelo valor simbólico que representa na luta contra o arbítrio e a violência institucionalizadas em nosso País em passado recente", conforme parecer do Condephaat, órgão estadual de proteção ao patrimônio.