Museu de Arte Sacra


Glossário
Considerações

Cemitério inclui o terreno utilizado para inumar os mortos, um espaço único, normalmente situado ao redor ou ao lado das igrejas e em terrenos distantes da mesma. Trata-se, no caso do Mosteiro da Luz, de estrutura peculiar, também existente em outras igrejas paulistas e que constitui numa espécie de capela, com um altar, arco, porta e janelas. Como contém tanto carneiros de parede ou nichos funerários verticais, emoldurados, do estilo eclético, quanto covas de chão, isto é, túmulos verticais e horizontais, é uma estrutura arquitetônica de caráter funerário um tanto complexa. Penso que, a priori, podemos designar essa estrutura interna como uma câmara mortuária, contendo carneiros e covas de chão. O termo capela funerária (interna) pode ser empregado.

Cripta refere-se a uma estrutura arquitetônica funerária de subsolo, pelo menos é o que indica a bibliografia consultada. Assim, nesse caso do Mosteiro da Luz, não estamos falando de uma cripta, mas sim de uma capela funerária interna ao claustro e seu pátio, formada por uma câmara mortuária composta de janelas, porta, arco, parede com carneiros e covas de chão (e, ainda, provavelmente, um ossuário de parede - mural - e uma possível entrada de catacumba). João Reis (1991) é o que melhor define esses termos que usou na s igrejas da Bahia. Ariès (1981) distingue túmulos verticais e túmulos horizontais. O termo cova de chão é empregado por João Reis (1991) aqui no Brasil, bem como o termo carneiros, para os nichos funerários de caráter temporário, construídos nas paredes, encimados por arcos trilobados e emoldurados. O termo sepultura é sinônimo de túmulo.

Carneiro é o nome mais usual na terminologia funerária histórica. O termo carneiro é encontrado nos livros de registro de tombo do Mosteiro da Luz. Penso, sinceramente, que devemos adotar as terminologias empregadas pelos que redigiram os livros de registro do Mosteiro e consultar as freiras sobre essa terminologia no seio da igreja. No decorrer dos estudos que estou fazendo sobre as práticas funerárias em períodos históricos e voltadas ao espaço das igrejas, poderemos corrigir ou complementar esses conceitos. Ainda, o termo carneiro, embora também designando animal, é comum na literatura que trata sobre morte. Assim, um carneiro é um nicho funerário de uso temporário (individualmente) ou designa, ainda, um conjunto de sepulturas temporárias ou carneiros: denomina um tipo de sepultura temporária ou o espaço com várias sepulturas temporárias simultâneamente. Entretanto, um nicho funerário pode não ser um carneiro no sentido de carnarium, comumente encontrado nas igrejas coloniais e pós-coloniais do Brasil e da Europa.

Em decorrência do uso de cada tipo de estrutura funerária, os nomes variam, de época para época e de lugar para lugar,dependendo da religião e nas crenças após a morte.



Glossário

Túmulo: (lat. tumulus, tumuli) é monumento elevado em memória de alguém, no lugar onde ele está sepultado. Monte de terra; cúmulo, construção de pedra, em forma de cone, de tronco de cone, de pirâmide ou simples montículo, que os antigos levantavam sobre as sepulturas. Em Portugal, por exemplo, desde o séc. XII ao XVIII, existem túmulos de grande importância arquitetônica, nos estilos românico, de transição, gótico, flamengo, renascentista e D. João V. Trata-se de estrutura funerária positiva, elevada acima do nível do substrato ou no mesmo nível deste. É sinônimo de sepulcro, sepultura, tumba, mausoléu, catafalco. Para Tânia de Andrade Lima (1994), por túmulo entende-se:

(...) o jazigo onde foram realizados um ou mais sepultamentos primários, ou seja, onde foram dispostos os corpos articulados de um ou mais indivíduos, em posição distendida, normalmente em caixões. Do ponto de vista da forma, essas sepulturas são alongadas, de modo a comportar um corpo deitado (LIMA, 1994, p. 96).

Túmulo-epitáfio: uma pequena placa de 20 a 30cm x 40 a 50cm, coberta por inscrições. É um tipo antigo de túmulo, abertos nos muros externos e internos das igrejas. Trata-se de um loculus onde eram depositados os ossos de um cadáver, após transferência da primeira sepultura provisória. Eram construídos na Europa dos sécs. XII ao fim do XVIII, fixados sobre os muros, pilares das igrejas, das capelas, das galerias dos carneiros. Outros tipos morfológicos de túmulos são o vertical e mural e o outro, horizontal, estendido no chão.

Túmulo vertical e mural: é um sarcófago, normalmente reutilizável, sem inscrições ou retratos, colocado contra o muro. Apenas três das quatro faces eram decoradas. Sobre o sarcófago, uma inscrição. Ambos, sarcófago e inscrição, eram colocados sob um arco (arcosolium). O túmulo-oratório representa sarcófagos ou túmulos unidos ao altar. Os túmulos verticais prestavam-se à munumentalidade. As tumbas constituem pequenas construções para os restos dos defuntos, com paredes, teto e porta (vedada ou aberta); pode ser construída parcialmente ou inteiramente no subsolo dentro de um cemitério, de uma igreja ou em sua cripta. Os mausoléus são tumbas de médias ou grandes proporções, podendo ser, também, uma estrutura formada por criptas contendo tumbas. Trata-se de estrutura funerária positiva, elevada acima do nível do substrato e unida a um piso e parede simultaneamente, predominantemente vertical e mural.

Túmulo horizontal em chão raso: é um tipo de túmulo medieval e moderno, horizontal, encaixado ao rés-do-chão, fechado por uma simples lápide de pedra retangular plana, cujas dimensões são variáveis, mas em geral correspondem às do corpo humano, raramente maiores. São designadas por tumulus, monumentum, memória, sarceu e depois são chamadas lame (lâmina), cova, tumba ou tumba rasa.Trata-se de estrutura funerária inserida em substrato (piso), no mesmo nível deste e horizontal, fechando ou delimitando uma cova ou túmulo.

Tumba: segundo Ariès (1981, v.1, p. 254), esse termo foi tomado do grego no sentido de tumulus. Foi empregado sob a forma latina no séc. V. O termo é encontrado em várias línguas desde a Idade Média européia: tombe, tumb, tomba.É sinônimo de túmulo, sepultura, jazigo, de esquife, ataúde, féretro, caixão.

Lâmina ou lápide: é a pedra (pierre sépulcrale) ou lápide tumular que recobre a tumba e a cova onde o corpo foi depositado. Esse tipo de túmulo implica no enterramento do corpo sob o solo, diferentemente do ensarcophagement. É raro, segundo Ariès (1981), que a lápide coincida com o lugar exato da cova onde o corpo foi realmente enterrado. Mas não importa. Ela é parte do lajedo, confundindo-se com o chão, de que é parte estrutural. Separa o mundo de cima do de baixo.

Lápide (lat. lapis, lapidis) é uma laje que cobre o túmulo.



Capela funerária: Termo encontrado em Leicht (1965, p. 292 e 296), como ampliação do arcosilium, compartimento maior nas catacumbas romanas, empregado como local de devoção nas sepulturas dos mártires e bispos; como capela tumular, um tipo de dependência menor de uma igreja paroquial no Ocidente, assim como a capela batismal, construções de forma arredondada. No Mosteiro da Luz, a capela mais antiga, interna, está voltada para o claustro e para o pátio interno (com impluvium e atrium). Possui janelas, porta, altar central para missas, arco, carneiros (túmulos verticais), covas de chão (túmulos horizontais) e possível ossário mural. A capela funerária mais recente, com porta e telhado, contém 4 túmulos (jazigos),com 6 gavetas ou nichos funerários cada, dois conjuntos de ossários nas paredes laterais, um altar central, para missas, um túmulo vertical e mural (sarcófago) da Irmã Oliva e um local de descarte do ossário (ossuária), sob laje, do lado direito do altar.

Carneiro: (lat. carnarium) é um ossário, jazigo, sepulcro. Pode denominar um subterrâneo onde se depositam corpos embalsamados. Forma de inumação, normalmente temporária, em nicho funerário que resultava no transporte e alojamento dos restos esqueletizados do corpo em um ossário.

Catacumba (it. catacomba) subterrâneo onde se sepultavam os mortos. As catacumbas mais conhecidas, que na sua origem eram apenas pedreiras abandonadas, são as de Roma, Nápoles, Syracusa e Paris. "As de Roma tornaram-se célebres por terem servido de refúgio aos christãos, na épocha das perseguições; mas não é de crer que os perseguidos ahi se escondessem por muito tempo ou em grande número e muito menos que lá vivessem, porque a falta de ventilação bastaria para os impossibilitar d´isso. Na realidade, as catacumbas facultavam aos christãos um meio, não precisamente de dissimular as suas sepulturas, mas de afastar d´ellas a attenção pública, e também de celebrar em segredo os ritos fúnebres religiosos, porque a religião christã prescrevia aos seus adeptos que enterrassem os mortos e não os queimassem, como faziam os pagãos(...) . Quanto às catacumbas de Paris, são antigas pedreiras exploradas, que tiveram fortuitamente um destino idêntico às de Roma, pois resolveu-se de 1781 a 1788, transportar para alli as ossadas provenientes dos cemitérios abandonados da cidade. "(GRAVE; NETTO, s.d. v. 1, p. 496) Por outro lado, Bazin (1961) nos descreve as catacumbas em detalhes:

(...) catacumbas, cementerios excavados por los cristianos durante su existencia clandestina, del siglo I al III, em el subsuelo calcáreo de la propia Roma. Em lãs paredes de largos corredores (ambulacra), que constituyen verdaderas ciudades subterráneas, se soperponen lãs sepulturas (loculi), cerradas por uma losa sobre la cual figura el nombre del muerto. De vez em cuando uma tumba más importante, de forma abovedada (arcosolium), corresponde a algún notable o mártir.Ciertos ensanches, em uma galeria com arcosolia , constituyen a modo de capillas funerárias (cubicula). (BAZIN, 1961, p. 110-111)

O hábito de sepultamento em catacumbas existia em Roma mesmo antes do cristianismo. As catacumbas ofereciam espaço tanto aos pagãos quanto aos cristãos. Para Leicht (1965),

O esqueleto arquitetônico das necrópoles subterrâneas, na sua maioria instaladas fora das cidades, é constituído por galerias cruzadas, os cuniculi, cavados na terra, tendo três a quatro metros de altura e meio a um metro de largura. Exíguas clarabóias, as luminária, proporcionavam arejamento e fraca iluminação. Quando se fazia necessário, cavavam-se novas galerias sob as já existentes. Formaram-se assim com o correr do tempo vários andares sobrepostos. Encontram-se também com freqüência galerias mais recentes que atravessam antigas sepulturas. Os mortos descansavam em câmaras tumulares, cubicula, cujas aberturas retangulares (...) eram fechadas por placas de mármore. Inscrições nessas placas indicavam os nomes dos mortos, quando não eram substituídos por símbolos. Se havia falta de espaço, abriam-se as câmaras nas paredes, em sentido transversal às galerias e não em sentido longitudinal, paralelas às galerias; daí resultavam aberturas consideravelmente menores em frente a espaços cavados correspondentemente mais fundos. Em frente às sepulturas dos bispos e mártires as galerias eram alargadas, formando compartimentos maiores, sendo esses locais de repouso assinalados por uma arcada, o arcosilium (...). Depois de ser o Cristianismo elevado a religião oficial, ampliaram-se os pequenos locais da devoção, transformando-os em capelas funerárias maiores, as cellae memoriae, que então eram providas de novas clarabóias, até surgirem finalmente construções sobre a terra, em cima deles. (...) Amplas instalações, sarcófagos talhados na rocha natural, ocasionalmente rematados por meio de portas de mármore ou ligados ao teto da rocha através de curtos pilares de ângulo, emprestam sobretudo às catacumbas sicilianas um caráter monumental, baseado na continuação de antigas tradições. Nas catacumbas romanas os sarcófagos são raros e de execução simples.(LEICHT, 1965, p. 292-293).

Cemitério: (lat. Coemiterium, gr. Koimêtêrion, lugar onde se dorme) terreno em que se enterram ou depositam os mortos. As catacumbas foram os primeiros cemitérios dos cristãos em Roma. É, para Lima (1994, p. 104), "um espaço disciplinado, silencioso, onde se fala baixo, de modo a que não se perturbe o sono dos mortos".

Em Portugal de fins do séc. XIX (1853-1863), os cemitérios deveriam ter uma superfície de terreno capaz de comportar um número de sepulturas pelo menos igual a cinco vezes o número de óbitos da população, de modo que a sepultura em que se deposite um cadáver não seja utilizada novamente senão 5 anos depois. O cemitério contém capelas, jazigos, arruamentos, árvores, etc. As sepulturas devem ter 2 m de comprimento e 65cm de largura e estarem afastadas 33 cm umas das outras, por todos os lados.

Um cemitério pode ser entendido, segundo Lima (1994, p. 95), como "um sítio arqueológico, sendo os jazigos considerados como artefatos e, nessa condição, reunindo uma série de atributos". Pode servir para a verificação de mudanças ocorridas nas formas de representação da morte na passagem entre o período imperial escravista e a república progressivamente capitalista no Brasil (LIMA, 1994).

Cripta (gr. kruptos, oculto) subterrâneo de igreja onde outrora se enterravam os mortos. Quando surgiram as primeiras igrejas cristãs, a cripta foi conservada no subterrâneo e destinada unicamente a sepultar os membros do clero e ao depósito de alguns corpos de santos. É realmente uma construção no subsolo, forrada por tijolos ou pedras ou escavada diretamente no solo. Localiza-se nas partes mais inferiores das igrejas, contendo corpos de clérigos ou civis importantes ou mesmo relíquias.

Ossário (lat. ossuarius) ou ossuário, ossaria é um depósito de ossos humanos, particularmente junto aos campos de batalhas; lugar onde se guardam ossos. Outrora, todos os cemitérios possuíam um ossuário. Quando o cemitério cercava a igreja, o ossuário ficava habitualmente instalado entre os contrafortes das naves. Algumas vezes consistia em uma pequena edificação, independente. Nos claustros, o ossuário ficava situado na galeria encostada à igreja; compunha-se de uma espécie de armários onde se colocavam os ossos. Por vezes esses redutos eram fechados e, ao consertar as paredes de antigas igrejas, encontravam-se esses nichos.

Entende-se como um dos 3 tipos de sepultura ou jazigo definidos por Lima (1994):

(...) por ossário entende-se o jazigo onde foram realizados um ou mais sepultamentos secundários, ou seja, onde foram dispostos os ossos desarticulados de um ou mais indivíduos, após o processo da sua decomposição, normalmente em urnas. Do ponto de vista da forma, essas sepulturas são estreitas e altas, não comportando o corpo humano em posição distendida (LIMA, 1994, p. 96).

Mausoléu (de Mausolo, n.p.) sepulcro suntuoso. É uma categoria de jazigo ou sepultura, assim definido por Lima (1994):

(...) por mausoléu entende-se uma terceira categoria (além de túmulo e ossário), híbrida, que comporta tanto sepultamentos primários quanto secundários, em caixões e em urnas, de vários indivíduos, pertencentes a uma mesma família, grupo, organização ou entidade civil ou religiosa. Do ponto de vista da forma, trata-se de uma edificação de grande porte, de caráter monumental, suntuosa. Duas sub-categorias foram reconhecidas entre os mausoléus: as capelas, caso em que essas edificações apresentam uma arquitetura eminentemente religiosa, cristã, reproduzindo uma pequena igreja, e os monumentos, onde inexiste este tipo de vinculação (LIMA, 1994, p. 96).



Mosteiro (lat. monasterium) habitação de monjes ou monjas. No plural: mosteiros ou arcos, abóbadas ou pequenas capelas, onde se sepultam os defuntos.

Claustro: (lat. claustrum) pátio interior, descoberto e rodeado geralmente de arcarias (arcadas, arcos), nos conventos ou nos edifícios que o foram. O pátio rodeado por quatro pórticos nas antigas basílicas era o atrium, origem do claustro nos monastérios medievais. No centro desse átrio, um canthare, ou fonte de ablação, origem da pia de água benta. (BAZIN, 1961, p. 113).

Referências (citadas e complementares)

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