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No caminho da contextualização do acervo do Museu de Arte Sacra de São Paulo
Texto: Padre José Arnaldo Juliano dos Santos Imagens: Lucas Benedetti Ao se pensar em qualquer política de preservação e conservação do patrimônio cultural, é preciso lembrar que este patrimônio visto em suas mais diversas dimensões - histórica, cultural, artística, arqueológica, dentre outras, guarda a memória daqueles que o produziram, suas histórias, seus costumes, seus artefatos, seus saberes. Portanto, não são apenas vestígios do passado, mas legado para o futuro, tendo muito a dizer ao tempo atual. Nesse sentido, uma das tarefas mais complexas e talvez mais importantes a se realizar por qualquer pessoa ou instituição dedicada à missão de proteger o patrimônio cultural é a de contextualizá-lo. Este trabalho pode sugerir dois caminhos, aparentemente contraditórios, mas que na realidade são complementares em seus objetivos. Contextualizar, em primeiro lugar, é resgatar o momento histórico e todo o ideário dentro do qual um determinado patrimônio foi concebido e construído. Em segundo lugar, contextualizar é revisitar toda a complexidade deste patrimônio e trazê-lo para o momento social e histórico presente, a fim de que se possa estabelecer um diálogo contínuo com os mais diversos segmentos da sociedade. Deste modo, o Museu de Arte Sacra de São Paulo está se lançando em um esforço de contextualizar seu acervo, um rico patrimônio textual, arquitetônico, estatuário e imagético, constituído por artefatos produzidos em sua maioria, dentro do período histórico do Brasil Colonial - do século XVI ao início do século XIX. Além desta dimensão material, é preciso também buscar as referências imateriais, expressas nas tradições populares, nas festas, músicas, gastronomia e costumes provenientes da mistura dos povos que aqui se encontraram: dos europeus, dos nativos e dos africanos. O primeiro passo neste trabalho foi o de eleger um eixo de pesquisa. Adotaram-se parâmetros históricos e geográficos bem definidos para este fim, com foco na Capitania de São Vicente, na Vila de São Paulo e, a partir daí, na expansão bandeirista para o interior através do Rio Tietê. Como ponto de partida para a tarefa de investigação e contextualização, escolheu-se Santana de Parnaíba. Esta escolha deveu-se a duas razões principais. Primeiramente, porque o MAS possui um número significativo de peças provenientes desta região, e em segundo lugar, devido à relevância histórica desta localidade no período que vai do século XVI ao XVII, quando se registra próspero e rápido crescimento. Em seguida, conduziu-se uma viagem para estudos de campo, realizada no dia 1º de maio de 2011, quando realizaram-se sondagens sobre esse importante sítio. Durante os trabalhos preliminares de pesquisa a respeito das origens da Vila de Santana de Parnaíba, deparou-se com referências ao Antigo Mosteiro Beneditino de Nossa Senhora do Desterro, uma construção não mais existente. Sabe-se que já estaria em ruínas no fim do século XVIII e que o lote no qual foi construído teria sido leiloado em 7 de dezembro de 1792. Desta presença beneditina na cidade, notabilizou-se Frei Agostinho de Jesus por sua obra como escultor, ao utilizar argila silicosa, abundante na região para a confecção de suas obras, e que ali habitou por quase duas décadas. Estas primeiras investigações conduziram a uma série de constatações a respeito de diversos aspectos da vida em Santana de Parnaíba no período estudado. Primeiramente, no que diz respeito à ocupação do território, pode-se afirmar que a orientação política de povoamento e exploração dada pela Coroa portuguesa marcou a instituição de um regime de autoridade, levando aos primeiros assentamentos, correspondendo à concessão de sesmarias. Em decorrência deste sistema, criou-se uma vinculação entre a posse de terras e participação política. Assim possuir uma "casa" (necessária para a participação política) na vila e roças (extensas áreas de lavouras para a agricultura de subsistência) afastadas dessa foi uma característica da vida paulistana no séc. XVI e XVII. Surge o chamado "homem bom" da Vila paulistana que é o chefe patriarcal, membro da Câmara e proprietário de imensas glebas nos arredores. Em segundo lugar, é importante salientar a unificação ibérica, a partir de 1580 e até 1640, que faz com que prevaleça a orientação político-econômica da Espanha, no sentido de fomentar a exploração de minérios. É nesse contexto que, antes de 1580, Manuel Fernandes Ramos (português, "homem bom da Vila de São Paulo e juiz ordinário) casado com a mameluca Suzana Dias (neta de Tibiriçá), desce o rio Anhembi (atual Tietê), instalando uma fazenda na futura Vila de Santana de Parnaíba, embora continuasse a morar na Vila de São Paulo de Piratininga. Como conseqüência desta política de exploração de minérios, ainda no século XVI nota-se uma rápida ocupação dessa área propiciada pela descoberta (c. 1589) de ouro em Voturuna (Parnaíba) e ferro em Araçoiaba (próximo da atual Sorocaba). Com o recrudescimento de atividades em torno da exploração mineral nesta região, abriu-se caminho para a formação das Entradas (expedições oficiais organizadas pelo Governador-Geral) para o sertão e também para o estabelecimento de um corpo de funcionários para administrar as pesquisas, além de atrair também a vinda de mineiros peritos do Reino, em geral espanhóis e flamencos que passaram a fazer parte da população local. Nas quatro primeiras décadas do séc. XVII houve uma intensificação das Bandeiras (expedições livres que vão à busca de ouro, e outros produtos de mercado) o que provocou a expulsão dos jesuítas de São Paulo. Em 1643, André Fernandes, solicitou a instalação da Ordem dos Beneditinos, dando-lhe terras. A partir da instalação do mosteiro beneditino se definiram os dois pólos da Vila de Santana de Parnaíba - capela/pelouro e mosteiro beneditino - entre os quais se estendeu o eixo definidor do espaço urbano de Santana de Parnaíba. Em terceiro lugar, é necessário deter-se também sob aspectos da política local. Em 1625, na Capela de Sant'anna comemorou-se a elevação de Santana de Parnaíba a categoria de vila, vencendo a forte oposição da Vila de São Paulo. Assim, no Planalto, depois da Vila de São Paulo e de Mogi das Cruzes, Santana de Parnaíba constitui-se a terceira localidade, formalmente elevada à condição de vila. Este local, ponto de partida para a expansão interiorana, passou a ser uma zona de conflito devido à ingerência dos jesuítas contra o apresamento dos índios, no entanto tal fator não impediu a consolidação desta Vila no plano da definição de seu território e da sua independência administrativa. A Vila de Santana de Parnaíba prosperava cada vez mais e dela faziam parte outros territórios, como exemplos, o "Bairro de Barueri", Pirapora, São Roque, Araçariguama, Juquery, Ajapi, Sapucaia, Itu e Sorocaba. Um fato determinante deu-se por volta de 1630 quando foi instituída a Paróquia de Parnaíba independente de São Paulo. Essa passou a ter um vigário efetivo que garantia a autonomia dessa Vila. Assim, partindo dessas raízes históricas, sobretudo, da Vila de Santana de Parnaíba, iniciamos a contextualização do acervo proveniente deste local e que pertence ao Museu de Arte Sacra de São Paulo. |
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